
Noite escura, tenebrosa,
vagas altas, incessantes,
o navio segue a custo
o seu navegar errante.
A tempestade aumenta,
cai a chuva em catadupas,
não se vê um palmo à frente.
Céu riscado pelos raios
das incertezas da vida,
os relâmpagos fazem crer
que a noite fechada é dia.
E, a cada ribombar
da terrível trovoada,
o navio fecha as asas,
feitas de espuma e esperança.
Lá longe, à sua espera,
existe um porto seguro,
mas é tão grande a distância,
tão difícil o caminho,
que o navio desespera
e chora, muito baixinho.
Ele bem olha, na crença
de encontrar barco amigo,
mas não há nada que vença
a tormenta do destino.
E, a pouco e pouco, desiste,
cansado de tanta luta.
Cada onda é mais forte,
para ele que está exausto.
Só lhe resta entregar-se
aos braços da sua sorte.
Como um último apelo
acende ainda uma luz.
Talvez haja alguém a vê-lo...
Nada! Só o bramido do mar
lhe responde.
E, nessa imensidão,
feita de vento e raiva,
o navio vai ao fundo.
Leva consigo aquilo que já sentiu:
o azul do céu a brilhar,
as gaivotas mergulhando
em busca de alimento.
O navio vai descendo...
Fica pousado na areia,
entre rochas e corais
e, no silêncio azul,
que finalmente o rodeia,
encontra o que nunca teve...
um leve vestígio de paz.
.
*Julho 2002